domingo, 20 de fevereiro de 2022

100 anos da semana moderna de 22. E o impacto na arquitetura e interiores.

 De 11 a 18 de fevereiro de 1922, ocorreu, na cidade de São Paulo, o que foi nomeado como a Semana de Arte Moderna – a manifestação de diversos intelectuais paulistas e cariocas sobre aquilo que “havia de mais rigorosamente intelectual no mundo das artes”1, da escultura, pintura, literatura, música e arquitetura.  ( Apesar de ter tido apenas 3 dias de espetáculos ficou conhecida como a Semana moderna).


 

Nesse grupo de intelectuais, destacavam-se grandes nomes, como a pintora Anita Malfatti, os escritores Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia, o escultor Victor Brecheret, o arquiteto espanhol Antonio Garcia Moya e o suíço John Graz, apresentado na Semana como pintor, mas que também atuaria bastante com o design da forma mais completa que conhecemos, desenhando desde maçanetas, mobiliário e luminárias a interiores, assim ele foi o representante de nosso segmento.

Logicamente que a turbulência estética mundial – principalmente a europeia, ao abandonar a linguagem que vigorava no século XIX – e os movimentos de vanguarda, como o cubismo, o expressionismo e o futurismo, influenciaram esses intelectuais, já que a maioria tinha educação europeia e era recém-chegada de lá. Havia um grande interesse na liberdade de criar e na experimentação, em romper com o que representava o passado. Isso passou a ser esse criativo moderno.

O que nos motiva neste artigo está, porém, além disso. Trata-se da busca por uma linguagem brasileira, apresentada claramente no Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, que pregou a “digestão” dos valores importados e a criação de uma identidade brasileira, uma brasilidade marcada pelo senso de humor e ironia, e declarou “TUPI OR NOT TUPI”.

O Brasil daquele início de século XX começa a apresentar potencialidades para o desenvolvimento de algo realmente novo, criativo e com uma nova linguagem brasileira. Algo que poderemos chamar de brasilidade, afinal. Nessa ideia, ainda se entende um rompimento com os valores estéticos predominantes, importados principalmente da Europa: semente necessária para o entendimento dos próximos passos que iremos abordar – que, se fosse focado nas artes, seria um longo artigo, mas o foco aqui é Arquitetura e Design.

Logo na sequência, chega ao Brasil o arquiteto russo Gregori Warchavchik – natural de Odessa, na época parte da Rússia e hoje Ucrânia –, que trazia consigo as ideias de Walter GropiusMies van der Rohe e Le Corbusier. Apesar de o nosso País não ter, então, conhecimentos claros sobre os papéis do arquiteto e do engenheiro como já existiam em outros países, foi esse clima de modernismo que motivou Warchavchik a aplicar esses conceitos.

Dois anos depois de sua chegada, Warchavchik escreve um artigo intitulado “Futurismo? Acerca da Arquitetura Moderna”, considerado o manifesto da arquitetura modernista no Brasil. O artigo expõe algumas ideias do arquiteto sobre o novo padrão de estética arquitetônica que estava florescendo, demonstrando a necessidade de as edificações acompanharem a evolução tecnológica, modernizando-se: não apenas com a utilização de técnicas construtivas, mas principalmente em relação à estética da construção, estética esta entendida de forma mais “limpa”, desprovida de ornamentos inúteis que não eram coerentes com o novo estilo de vida moderno brasileiro. Dessa forma, assim como os modernistas de 22, Warchavchik defendeu a arquitetura livre de valores do passado, mas atada aos valores novos da modernidade.



Assim, no seu primeiro exercício, constrói sua casa em 1927, na Rua Santa Cruz, no bairro de Vila Mariana, em São Paulo. A obra foi concluída em 1928 e é considerada a primeira casa modernista2 do País, ( e hoje segundo Framptom a primeira do mundo), conseguindo refletir essa que seria a “essência” nacional. Logicamente que a conclusão da obra foi um choque para a sociedade, acostumada com palacetes estilo francês. 

No seu exterior, a casa contava com um projeto paisagístico moderno de autoria de sua esposa, Mina Klabin Warchavchik. Como era de se esperar, o casal levou o conceito de modernidade aos mínimos detalhes da habitação, e, dessa forma, foi necessário desenhar todo o interior da casa, os móveis, a iluminação. A decoração precisou ser toda desenhada pelo arquiteto, dando início aqui ao entendimento de um Design brasileiro, feito no Brasil com inovação e apoiado num discurso claro (apresentado por meio de um manifesto – coisa comum à época), de acompanhar a evolução tecnológica.

 

1.     Gonçalves, Marcos Augusto. 1922, a Semana que Não Terminou. São Paulo, Companhia das Letras, 2012.

2.     A casa, hoje pertencente ao Estado de São Paulo, foi tombada em 1980 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado e reconhecida como Patrimônio Histórico pelo IPHAN, tornando-se um parque.


artigo originalmente publicado na MixDesign fev22




segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

NATAL POR TRÁS DOS VIDROS

 NATAL POR TRÁS DOS VIDROS

Especialista em design e arquitetura, Alvaro Guillermo dá dicas de como desenvolver uma vitrine criativa para o final de ano sem gastar muito.

por Bianca Bellucci




No destaque, foto de vitrine foi realizada pelo Alvaro para uma loja de móveis. Ele aproveitou que o logo da marca era dourado para misturar com o branco (cores mais usadas no fim de ano). A poltrona faz uma analogia à poltrona que o papai-noel senta para distribuir presentes.



"criar vitrines comemorativas que não se identifiquem com a marca é um erro comum."Alvaro guillermo

Há 33 anos no mercado de design e arquitetura, Alvaro Guillermo é fundador da Mais Grupo (agência que desenvolve estratégias criativas paramarcas) e professor de MBA do curso de Ciências do Consumo na ESPM. Especialista em design estratégico, branding e consumo, ele deixou sua rotina de lado para conversar com a Christmas News sobre o visual que as vitrines devem ter no Natal.


Acompanhe as dicas de Guillermo para chamar a atenção dos clientes sem gastar muito e ter sucesso na época mais especial do ano.


Christmas News: Como se deu a evolução das vitrines até os dias de hoje?


Alvaro Guillermo: O conceito de vitrines que conhecemos hoje surgiu em Paris, na França, junto às máquinas fotográficas. Na época, as pessoas andavam pelas ruas, achavam uma fachada interessante, fotografavam e essa imagem acabava correndo o mundo. Em determinado momento, alguém percebeu que se colocasse seu logo naquela composição, sua marca poderia ser conhecida em diferentes locais do planeta. Sobre sua função, é simples: ativar a memória das pessoas. Atualmente, com a era dos smartphones, todo mundo consegue fazer uma foto. Porém, criar uma vitrine a ponto de chamar a atenção de alguém e conseguir ser lembrado por ela, está bem mais complicado.


CN No Natal, com tantas vitrines decoradas e similares, fica ainda mais difícil lembrar em

que loja uma pessoa viu determinado produto. Como é possível se destacar?


AG A grande falha - e que ocorre em qualquer data comemorativa, não apenas no Natal - é criar vitrines que lembram a festividade, mas não trazem a identidade da marca. No momento de montar sua vitrine, você deve pensar o que o tema tem a ver com sua empresa, como você vê o Natal e de que forma pode retratá-lo. Tenha sempre como exemplo a Coca-Cola. A empresa criou uma campanha de marketing tão forte que hoje não conseguimos pensar em um Papai Noel que não vista uma roupa vermelha e tenha aquela cara de bonzinho.


CN Como usar técnicas de visual merchandising para impactar ainda mais uma vitrine

nesta época do ano?


AG Para começar você deve ter um planejamento antes de montar sua fachada. É preciso pensar que terá uma vitrine exposta durante dois ou três meses. Então, não dá para oferecer algo cansativo. Ao mesmo tempo, não pode mudar muito nesse período, pois no Natal as pessoas vão em novembro para ver as ofertas e voltam apenas em dezembro para comprar. Se você modificar completamente a fachada, o cliente não lembrará mais que viu o produto em sua loja. Para ter sucesso, amplie, componha e misture os elementos que estão em sua vitrine, mas sem fugir do conceito inicial. Também não é necessário gastar muito. Use a criatividade. Hoje, estamos vivendo a fase da economia criativa, nos importamos mais com a forma e como a peça é exposta do que quanto ela custou. Às vezes, a simples mudança de iluminação pode interferir e modificar um ambiente.


CN Nichos diferentes devem adotar estratégias diferentes para montar sua vitrine ou todos podem seguir a mesma tendência?


AG As vitrines precisam ser diferentes. Por exemplo, no Natal, uma marca de utensílios para cozinha deve seguir uma linha relacionada à família e gastronomia. Já o setor de moda pode explorar o lado de viagens, mar e praia. É importante vender o produto e o conceito sazonal de acordo com a linha que sua empresa segue e não o inverso.


CN Quais outras dicas para vender mais explorando o poder das vitrines natalinas?


AG Sempre imagine a vitrine como uma forma de vender seu conceito e sua marca. Saiba que você tem entre sete e oito segundos para chamar a atenção do cliente, fazer com que ele se identifique, entenda a proposta da fachada e saiba de quem é aquela composição. Se a vitrine não estiver bem posicionada, o cliente pode ir embora ou esquecer sua loja depois de uma hora. Outra dica é saber vender seu produto. Por exemplo, se você colocar sua echarpe em um manequim sentado em uma cadeira luxuosa, pode ser que entre alguém pedindo para comprar o móvel e não o acessório. O segredo está em valorizar suas mercadorias e compor uma vitrine que ative a memória dos clientes e faça com que eles não esqueçam a sua marca.



publicado originalmente na Revista HG Casa Cristmass News Julho 2015






quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

A VIDA SECRETA DAS ÁRVORES.

 


Uma das coisas que mais me chamou a atenção é que o livro está nlista de mais vendidos do The New York Times, com mais de 1 milhão de livros vendidos. É muito bom quando vemos livros que atingem esse patamar principalmente de cientistas ou filósofos. Neste caso de um cientista: Peter Wohlleben,engenheiro florestal e divulgador científico alemão, conhecido por suas obras populares sobre temas ecológicos.

 

Este é um livro que abre a mente para o conceito de ecologia, da vida (bio) e também de sustentabilidade, principalmente quando passamos a pensar na extensão da vida e na noção do tempo. Em comparação à vida humana, em média, as árvores vivem até 10 vezes mais, o que reforça a ideia que plantar árvores e/ou preservar as existentes amplia a consciência de nossa relação com as gerações futuras, já que são essas que irão conviver com árvores adultas, de mais de cem anos de vida. Eu que tenho escrito bastante sobre o Slow e longevidade, principalmente Slow design, o ritmo da natureza e das árvores em especial nos ensina muito.

 

Aliás, a educação familiar é uma das felizes descobertas que a leitura me trouxe.

 

“Uma boa educação é garantia de uma vida longa, mas às vezes a paciência das mudas se esgota.”Wohlleben pág. 37.




Se entendermos que esse aprendizado se dá através da seleção e transmissão de informações entre as árvores é possível passar a acreditar que estas informações podem ser repassadas através de suas raízes que mantém contato no subsolo com outras árvores da família, ou não, e com milhares de seres vivos que ali habitam (especialmente fungos) e que são invisíveis para nós, motivo pelo qual nem paramos para pensar em sua existência, como o próprio autor cita temos mais conhecimento sobre o espaço e a superfície lunar, do que os nossos subsolos ou fundo dos oceanos.

 

Esta de rede de conexões que se dá pelas raízes está sendo estudada pela ciência com mais profundidade.  


“ciência já fala da existência de uma 'wood wide web" que permeia as florestas. As pesquisas sobre quais e quantas informações são trocadas ainda estão no início. O que já se sabe é que os fungos seguem uma estratégia, calcada na intermediação e no equilíbrio, que às vezes põe em contato diferentes espécies de árvores, mesmo que sejam concorrentes.”pág. 16.




O texto é simples e acessível o que incentiva a leitura, principalmente a humildade do autor ao citar seus erros e de outros cientistas, não delegando o fardo das extinções apenas aos exploradores de florestas. Apesar de ter dedicado sua carreira na floresta da Alemanha, e por isso os exemplos se baseiam em dados desta floresta, tem citação ao Brasil, expandindo o conceito ecológico a uma consciência planetária, mais obvia agora com esta rede de conexões e informações.


“Também descobriram que o processo inteiro é interrompido quando as florestas costeiras são desmatadas. É como se alguém removesse os tubos de sucção de

água de uma bomba elétrica. No Brasil, as consequências já começaram a surgir: o nível de umidade da Floresta Amazônica está cada vez mais baixo. A Europa Central, a cerca de 600 quilômetros da costa, ainda faz parte da área de alcance da bomba de

sucção, e felizmente ainda existem florestas na região, apesar de sua área já ter diminuído bastante.”pág. 98.






Leitura imprescindível, para arquitetos, designers e paisagistas, e para todos aqueles que moram um algum país que tenha sua origem em árvores, como por acaso o Brasil, Terra Brasilis, terra dos Pau-Brasil, ou a árvores em brasa, queimando vermelhas.

 



Pense de novo. O poder de saber o que você não sabe.

 


O novo livro de ADAM GRANT, editora Sextante, 2021, trata sobre a capacidade de repensar e desaprender em um mundo em que as mudanças ocorrem de forma rápida, e perceber que muito do que conhecemos e entendíamos como certo já não mais da mesma forma. Para isso é necessário treinar nosso olhar e ter o cérebro aberto a repensar nossos conceitos, adotando uma postura científica frente às informações, ou seja, observar e ouvir de forma científica. Para isso, procurar fontes mais confiáveis, outras opiniões, estar preparado a ser questionado, o que Grant chama de modo cientista, propondo duvidar do que sabe, ter curiosidade a respeito do que não sabemos e atualizar nossas opiniões frente a novos dados.

 

Nada mais adequado aos tempos que estamos vivendo de pandemia de Covid, politização e radicalização dos mais diversos temas, e um caminho bom para isso é ter humildade.

 

“O conceito de humildade costuma ser mal compreendido; não significa baixa autoestima. Uma das raízes latinas de humildade significa "da terra". Humildade é, portanto, ser pé no chão: reconhecer que temos defeitos e somos falhos.”pág 53.



Enquanto a humildade nos abre a possibilidade de aprender coisas novas a arrogância nos cega e nos faz crer que não é necessário repensar nossos conceitos.

 

Um outro ponto importante na visão do autor, que coincide com muitas pesquisas que realizei e está no título de meu novo livro, é a importância da colaboração e faz parte do coletivo.

 

“Repensar não é apenas uma habilidade individual. É uma capacidade coletiva, que depende muito das práticas de uma organização.”pág. 205





O exemplo apresentado da NASA nos demonstra como mesmo corporações de excelência precisam repensar métodos, procedimentos e conceitos. Talvez até por esse motivo, de terem alcançado altos níveis de excelência, acha uma acomodação no status da inteligência, e assim, mais uma vez as corporações precisam estar preparadas para este novo mundo de mudanças constantes e rápidas, por isso não adianta apenas mudar a cultura empresarial e sim, se preparar para desenvolver uma cultura corporativa de mudanças.


terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Matrix RESURRECTIONS Bem-vindo ao Deserto do Real

 

Em tempos de ressurreição e na dificuldade de acreditar no que é real, o que não é, acreditar na que é ciência, acreditar nos que a negam, em tempos de pessoas presas a máquinas digitais e que tomam pílulas, nestes tempos em nada melhor que rever Matrix.


Aproveitando o lançamento do IV filme da saga de Neo, minha dica é rever a trilogia, lógico, mas principalmente da leitura deste livro Matrix: bem-vindo ao deserto do real, de William Irwin, da editora Madras de 2003.


William é filosofo e professor de filosofia, reúne nesta obra outros colegas acadêmicos da área para fazer boas reflexões sobre o que é real e aquilo que sentimos e vivenciamos, muitas vezes mediado por tecnologia.


Traz vários outros grandes nomes da filosofia e teologia para analisar detalhes do filme, como o mito da caverna de Platão, conhecimento e realidade, o pensamento cartesiano e o materialismo, o budismo e a bíblia cristã, liberdade, teoria da libertação, Marx, Kant, Marcel Duchamp..... O que faz da revisão do filme mais interessante ainda.


Na primeira edição brasileira tem uma introdução do editor Wagner Veneziani Costa que estimula ainda mais a continuar a leitura. Destaco aqui um trecho deste capítulo que analisa os signos numéricos presentes no filme.

 


Outro capítulo interessante é do Charles Griswold e trata da felicidade conhecimento e ignorância, nada melhor nestes tempos. No trecho em destaque faz uma alusão à alegoria da caverna de Platão.


“Ninguém desperta a si próprio, embora possa se remexer com lembranças primitivas, como acontece com Neo, a ponto de ter a vaga sensação de não saber se está acordado ou dormindo (Morpheus pergunta a Neo se ele já se sentiu assim). Morfeu é o nome do deus grego dos sonhos. Por que o libertador de Matrix tem o nome dessa divindade? Parece estranho, afinal de contas, que aquele com a missão de acordar seja o especialista em sono. O nome do deus vem da palavra grega morphé, que significa forma; pois o deus podia conjurar no adormecido todos os tipos de formas.” Griswold pág 158.



“A maioria das pessoas não está pronta para ser libertada” Morfeu.





Se interessar tem aqui neste blog outra resenha ligada a Matrix que aparece no início do filme quando Neo está lendo, BAUDRILLARD, JEAN Simulacros e Simulação Coleção: ANTROPOS Editora: RELOGIO D'AGUA, 1991. 

https://www.blogger.com/blog/post/edit/3169773127506169612/4044253184452757062