sexta-feira, 28 de setembro de 2018

A Vida é colorida - Irene Torre e o Wabi-sabi


Com o tempo, as cores “desbotam”, perdem sua intensidade, e a incidência do sol faz algumas cores desaparecem por completo. O que aprendemos com isso? Que as cores também contam histórias de vida. Nós nos acostumamos, equivocadamente, a pintar constantemente nossas vidas e a encobrir, assim, as marcas do tempo. A filosofia zen-budista Wabi-sabi mostra-nos que as marcas do tempo não precisam ser apagadas. Rugas, fissuras, materiais desgastados, enferrujados e nossos cabelos brancos são importantes para nos mostrar o tempo de vida.

Essa filosofia tem como princípio enaltecer as marcas do tempo, mesmo que nos traga recordações tristes – e estas são importantes, pois fizeram parte de nossas vidas. Nessa filosofia, quando um vaso se quebra é reparado com uma liga de ouro. Dessa forma, preservamos o objeto, destacamos as áreas quebradas que passam a ser mais valorizadas pelo ouro.

Nessa filosofia, Irene encontrou sustentação para as ideias que a vida a ajudou a encontrar: nos vasos quebrados pelo caminho, nas marcas que surgiram nos tecidos. Assim, assumiu seus cabelos brancos, suas rugas, suas recordações felizes e amargas e começou a organizá-las. 

Deixa muitas marcas, coloriu muitas vidas e nos deixa a obrigação da continuidade, de continuar a colorir nossa cidade, nosso país, nossas vidas.

Eu farei isso, e sei que muitos amigos virão juntos.

Allons de l'avant colorer la vie...

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

CONECTIVIDADE : Todos conectados o tempo todo


A conectividade era uma tendência apontada há mais de vinte anos, em teoria não tem nada de novo mas, na prática, sim. Isso porque as pessoas estão conectadas o tempo todo, mas não percebem o impacto disso e não planejam seus ambientes em função disso. A tecnologia digital foi a principal responsável pela rápida inserção desse conceito na sociedade, com esta estamos perto de pessoas distantes, mas nos distanciamos de que está por perto.
Ou seja, as empresas de tecnologia digital perceberam esta tendência e souberam gerar produtos, já outras áreas estão devendo mudanças.

[metade do mundo já está conectado à internet, e a maioria está conectada via equipamentos móveis.]

Logicamente que quando falamos em conectividade temos em mente a alta tecnologia, mas esta tendência não trata apenas do uso da tecnologia e sim do fato de estarmos todos conectados o tempo todo, e como isso impacta nossas vidas em todos os momentos, na casa, no trabalho, na escola. Por esse motivo ainda deve ser tratada como uma tendência pois, além de dominar os próximos anos, nós temos muita coisa para mudar que continua sendo projetada da mesma forma. Essa tendência é um “prato cheio” para arquitetos e designers de interiores, temos muitos ambientes para reformular.


Vejamos alguns exemplos, todos conectados significa: todos! De crianças aos mais idosos, de 8 a 80 (esse é outro conceito importante que abordarei em outro artigo), a facilidade de uso da tecnologia permite que praticamente todos consigam utilizar, então os ambientes devem ser de inclusão. Ainda vemos muitos ambientes projetados para que apenas os jovens possam utilizar a tecnologia, como se crianças e idosos não pudessem participar. Em breve o comando da maioria de nossos equipamentos digitais será através de voz.

[Google Home é uma marca de alto-falante inteligente desenvolvido pelo Google. O primeiro aparelho foi lançado em 2016. Os alto-falantes, Google Home, permitem que os usuários falem comandos de voz, para interagir com os serviços do Google por meio do assistente pessoal do Google, chamado Google assistant.]

 O tempo todo, isto está revolucionando a forma como vivemos, parece distante, mas apenas a 20 anos atrás tudo estava fechado às 22h. Estabelecimentos comerciais, a televisão, entre outros. A noite era silenciosa. Curitiba foi a primeira cidade do país, em 1990, a ter uma rua funcionando 24h. Parece medieval, mas é contemporâneo. Mesmo assim a maioria das pessoas ainda pensa sua vida em função dos horários pré-estabelecidos pelas fábricas.

Outro ponto importante é a conectividade como conceito. Conectividade é a propriedade de um espaço conexo, isto é, um espaço topológico que não pode ser representado como a união de dois ou mais conjuntos abertos disjuntos e não-vazios. Podemos ainda afirmar que um conjunto é conexo quando não admite outra cisão além da trivial.
Vamos entender nos ambientes: temos um espaço formado pela cozinha e vizinho temos a sala, quando abrimos a parede fazendo a ligação entre a sala e a cozinha não criei conectividade apenas os tornei visíveis buscando a integração entre eles. Hoje ouvimos falar de ambientes integrados, isso é outra coisa.

Um espaço com conectividade é quando não consigo mais diferenciar o que é cozinha do que é a sala, e suas funções estão tão atreladas que não posso mais separar os ambientes. Por esse motivo a conectividade tornou-se uma tendência tão importante para a arquitetura e interiores. Apesar de ainda termos muitos imóveis sendo lançados com separação de ambientes (dormitórios, salas, cozinhas, varandas) a tendência é que cada vez mais os novos moradores alterem significativamente essas divisões em função de suas conectividades. Nesse caso destaco significativamente como dar significado a esse ambiente novo.

Isso significa também que o profissional de arquitetura e design de interiores deve estar cada vez mais capacitado a entender como funcionam estas conectividades, além das questões técnicas da construção civil. 



terça-feira, 17 de julho de 2018

Floresta Urbana - A tendência de morar cada vez mais próximo da Natureza.


Floresta Urbana
A tendência de morar cada vez mais próximo da Natureza.
Alvaro Guillermo



Seguindo algumas tendências que abordei nos artigos anteriores a relação com as áreas verdes vem ditando algumas mudanças significativas no design de interiores e na arquitetura residencial, corporativa e urbana.
A primeira é a necessidade cada vez mais forte que as pessoas têm de encontrar uma relação mais objetiva com o tempo, onde de fato tenham uma noção mais concreta do tempo real. De modo geral, estamos vivendo em desencontro com o ritmo do tempo natural (dia, noite, sol, chuva etc.) e ditando nossas rotinas a partir do tempo da máquina, hoje digital, através de equipamentos mobiles (smartphones) e seus aplicativos. Nesse sentido a vivência mais próxima de plantas e áreas verdes nos possibilitam, pelo menos, perceber que estar próximos da Natureza nos faz desacelerar. Nosso corpo muda, respiramos de modo diferente, é como se nos acalmássemos e assim, naturalmente, desaceleramos.
A segunda tendência tem a ver com uma reflexão mais existencialista de entender que devemos viver com aquilo que é essencial e, desta forma, a arquitetura e o design de interiores tendem a nos proporcionar espaços mais vazios gerando ambientes mais contemplativos, onde de certa forma, também desaceleramos em relação a esse ritmo da máquina. E neste caso as áreas verdes e os produtos com matérias-primas naturais (madeiras e fibras, por exemplo) nos ajudam nessa contemplação.
Esta tendência vem sendo estudada de forma mais sistêmica há pelo menos 5 anos, mundialmente recebe o nome de Urban Jungle e se estabelece numa forte relação com o orgânico, que vai desde pequenas hortas, passando por paredes verdes (jardins verticais) até residências inteiramente inseridas na Natureza.
Além de estar sendo observada, esta tendência, está sendo avaliada também. Diversos estudos demonstram que este tipo de vida surge como uma necessidade do nosso organismo, pois isto nos faz bem.
Como sempre, o ser humano descobre algumas coisas pela falta, vivemos milhares de anos mais próximos da Natureza, mas foi quando esta começou a desaparecer que sentimos a falta. Pesquisas demonstram que viver com a Natureza nos faz bem, e não apenas em ambientes residenciais, nos corporativos também. Um estudo de 2014 realizado pela Universidade de Queensland, na Austrália, foi o primeiro trabalho científico a avaliar a relação entre as plantas e o mundo dos negócios e da produtividade. Os escritórios que serviram de base para o levantamento estão localizados na Holanda e no Reino Unido. Esse relatório foi elaborado em parceria com as instituições de Cardiff Exeter e Groningen e os resultados apontam que ambientes que foram reformulados apenas com plantas as equipes apresentaram um aumento de 15% em produtividade.
No Brasil cometemos alguns enganos ao analisar essa situação, o primeiro está relacionado com a abundância de áreas verdes que o país tem em relação a outros países do mundo, acreditando que estas áreas bastam para satisfazer nossa necessidade humana. Esta tendência não tem a ver com um cálculo de áreas verdes por habitante, e sim com a proximidade ao natural. Mesmo morando no litoral e olhando todo dia para o mar, ainda assim temos a necessidade de viver mais próximos da Natureza. E, por incrível que pareça, no Brasil esta necessidade aumenta mais, pois temos também um vínculo cultural que na medida que sentimos e percebemos que quando essas áreas diminuem nosso corpo "reclama”.
Felizmente essa tendência tem se espalhado de forma rápida e está sendo socialmente bem recebida e já ultrapassou os limites do lar, indo para os espaços coletivos e urbanos. Diversos grupos, associações, Ongs e alguns solitários estão criando e cuidando de espaços abandonados na cidade e proporcionando a oportunidade para que as florestas retornem, que árvores nativas voltem a crescer, que rios entubados e escondidos voltem a aflorar e fluir livremente junto a nós. Curitiba pretende, a exemplo de Seul, aflorar seus rios escondidos, a meta é bem ousada: pretendem até 2034 recuperar os rios da Capital, tanto em termos de poluição, como a sua renaturalização. Seul é um grande exemplo que deveria ser seguido por várias cidades ao substituir avenidas de fluxo viário deixando voltar os rios que aí estavam canalizados. A cidade ganhou muito em qualidade de vida, segurança e habitabilidade, relacionamento social, as pessoas passaram a frequentar esses locais, antes cinzas e originalmente o motivo para se estabelecerem aí.
Mas, só o fato de alguns profissionais da área estarem levando esse pensamento adiante a seus clientes educando-os sobre a importância de viver assim, é um bom motivo de esperança para nossas cidades.

 * artigo publicado na revista MixDecor julho 2018

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Design para habitar o tempo. A cidade de Milão o Design e o futuro.

Visitei a Feira de Milão pela primeira vez em 1988, portanto em 2018 comemorei 30 anos dessa estreia. 
Foi tão marcante que voltei nos dois anos seguintes. Trouxe novidades para a Revista Design & Interiores, com quem contribuía na época. Adélia Borges deu- me as dicas de abordar as empresas com um cartão que a revista me forneceu. 
Depois, durante a década de 1990, voltei algumas vezes. De 2004 em diante visitei a feira praticamente todo ano, levando inúmeros profissionais e empresários de arquitetura e design de interiores. Recentemente, em uma conta rápida, conclui: foram mais de 500 profissionais que zeram meu curso e me acompanharam nessas visitas técnicas pela cidade. Sempre estive profissionalmente associado à cidade, a ponto que alguns acreditam que sou milanês. 
Vi e vivi as mudanças que zeram dessa cidade a referência mundial que é em design. 
Em 2018, também se comemora 10 anos desde que a feira se instalou no novo pavilhão, Milan Trade Fair Rho, projeto do escritório Fuksas. Em 2008 e eu estava lá! 
Na primeira vez, na década de 1980 o que me chamou a atenção eram os conceitos do grupo italiano Memphis, fundado por Ettore Sottsass na década de 1970. Seu slogan “less is boring” em uma crítica direta ao racionalismo moderno do “less is moore”. Nessa visita, verificando e analisando outros produtos, achei que isso de fato estava mudando as coisas, esses objetos não eram os que mais vendiam mas, cedo ou tarde, o mundo iria receber essas ideias, e pensei em um futuro distante, de vinte anos. E vi um mundo mais humorado e colorido onde design tivesse importância e cada objeto ao nosso redor tivesse sido escolhido, também, pelo design. E acertei. 
Constantemente eu repetia: Como pode Sérgio Rodrigues ganhar o prêmio de design do móvel em 1961 e continuarmos valorizando o que vêm de fora? Quando falava com estrangeiros do Design (e minha rede de amizades é muito boa) todos falavam “Brazil? Sim, poltrona Mole”, e nós desconhecíamos na épo- ca. Mais tarde, no nal dos 1990 e início de 2000, o 
mesmo ocorreu com os irmãos Campana, muitos aqui diziam que isso não é design, e eu replicava é sim, é isso que move o interesse hoje, e aos poucos comecei a ver inúmeros profissionais brasileiros tirando foto com os Campanas em Milão, no estande da Edra. Pensei em um futuro onde o design brasileiro teria mais valor. E acertei de novo. 
   

Reparem nos produtos da empresa Magis uma das vencedoras do Third Edition of the Salone del Mobile.Milano Award, é evidente a importância de Memphis para a produção contemporânea. 
Milão é isso. Pensar no futuro. 
Eu pedia a meus alunos, como trabalho final de curso, que entregassem um trabalho pictórico com seu olhar sobre a visita com o que mais chamou a atenção, e assim eu podia avaliar e perceber como esses carregavam valores das visitas. Hoje faço isso usando as redes sociais, em cada post entendo o que cada profissional foi fazer na cidade. 
E me permito, dessa forma, fazer uma avaliação do momento atual. É ainda a semana que 
mais movimenta pessoas e interesse mundial pelo design. A grande maioria não aproveita a viagem como estudos, muitos ainda se deslumbram com conceitos e ideias dos anos 1980, poucos perceberam objetos e designers com novos conceitos, Karin Rashid, Philippe Starck e Marcel Wander foram os mais fotografados, o Brasil precisa ir para Milão para ser conhecido pelos brasileiros, vergonha... 

Creio que os próximos anos serão decisivos, as tensões radicais que o mundo passa e o debate sobre identidades que isso acarreta são as oportunidades para que Milão volte a trazer um de- bate mais profundo sobre os próximos 30 anos, e que os brasileiros façam do Brasil o lugar para o design acontecer. 
Artigo publicado na Revista MixDecor - maio 2018

sexta-feira, 11 de maio de 2018

ESTÁ NO MEU DNA: COMECE A MEDITAR SOBRE AS TENDÊNCIAS Especialistas brasileiros avaliam novos comportamentos de consumo

#4 ESTÁ NO MEU DNA: A crescente curiosidade das pessoas sobre sua composição genética – que os torna tão especiais – e a busca por personalização dos produtos/serviços de saúde e beleza estão alimentando a demanda por kits domésticos. Os consumidores-alvo vão desde os que se preocupam com seu bem-estar até aqueles que buscam entender suas origens e os fanáticos por nutrição e vida fitness.


Quando tratamos de tendências é importante associar várias destas para se ter um panorama melhor de que estamos tratando. Principalmente porque são assuntos novos com os quais não estamos acostumados.
Esta tendência está no meu DNA trata exatamente de um público que está cada vez mais consciente da importância da sua identidade. Até pouco tempo atrás entendíamos mais as identidades por grupos, e as relações sociais dos indivíduos. Agora em consequência da ciência e da tecnologia podemos perceber o valor do indivíduo isoladamente, e este também já percebeu isto.
Vamos a alguns exemplos: O que nos torna este ser único (Persona) é um pequeno percentual, que está cientificamente comprovado, do nosso DNA. Somos todos diferentes, singulares, mas ao mesmo tempo temos muito em comum com os outros. (nossos ascendentes, os humanos, seres vivos etc.)
Por isso o crescente interesse de saber quem de fato somos realizando testes de DNA em casa. E é muito interessante pois muitos também estão descobrindo que têm origens raciais que não imaginavam pelos relatos familiares.
Se sou tão singular quero saber quem de fato eu sou.
Por isso também os livros Sapiens - Uma Breve História da Humanidade e Homo Deus de Yuval Noah Harari estão entre os mais vendidos do Brasil e do mundo, é um fenômeno.
Saber quem somos, qual é minha identidade e personalidade também gera outros impactos no mundo como por exemplo a necessidade de personalização de produtos (customizar) que já faz tempo que vem ocorrendo, e outra mais recente que é a necessidade de uma grande variedade de produtos e serviços para que atenda a esta quantidade de Diversidade, descrito por Chris Anderson como A Cauda Longa, e marcas como Itunes, Amazon etc sabem trabalhar.
Que também está ligado com esta outra tendência que é a Diversidade, se somos diferentes e únicos nosso vizinho é diferente, portanto terei que conviver com as diferenças, daí o interesse em Coexistir e Coabitar.
Por último é bom ressaltar que estas investigações são muito simples de realizar graças à internet e smart mobiles (celulares, relógios, tablets..) essa curiosidade pode ser desenvolvida rapidamente na internet o que gera um novo público consumidor que é o detetive, aquele que vai atrás da informação, mesmo que não seja científica.
Num mundo que fico pensando muito em mim, quem eu sou, qual minha identidade, com quem me identifico, é o mundo do Self, pessoas que pensam muito em si e se mostram muito (selfies) as câmeras de celulares tiveram que inserir uma interface que permitisse “virar a tela” para fazer o autorretrato.
Marcas, lojas, empresas devem entender que as tendências demonstram o que já sabemos, o mundo é Hiper-complexo, o que serve para um não serve para todos. Assim devemos entender que o que serve para pessoas serve para empresas: a busca pela identidade saber de seu DNA. Por isso devem ter seus valores muito claros, expor e comunicar de forma clara, mostrar uma visão de futuro coerente com os valores, e que é diferente para que o consumidor perceba que se identifica com a marca, produto, serviço ou ambiente. Só assim ele iniciará o contato.

artigo publicado na Revista Licensing Brasil #59  - COMECE A MEDITAR SOBRE AS TENDÊNCIAS Especialistas brasileiros avaliam novos comportamentos de consumo.
meu texto sobre Está no meu DNA


quinta-feira, 5 de abril de 2018

Coabitar – um novo conceito de morar


Coabitar – um novo conceito de morar
Por Alvaro Guillermo


Se você mora ou morou em um edifício pode ter passado pela seguinte situação: encontrar um desconhecido no elevador, o qual muitas vezes nem oferece um bom dia, descerem juntos no mesmo andar e descobrir, dessa forma, que ele é seu vizinho de porta.

Este é o mundo contemporâneo do self, em que estamos tão preocupados conosco que não conseguimos sequer reparar o que ocorre na porta ao lado.

Além das consequências da vida cotidiana e das novas tecnologias, muitos culpam os arquitetos, responsáveis pelos projetos destes edifícios, pela potencialização dessa situação. Sair do carro pegar o elevador e entrar em casa é uma comodidade que não oferece a possibilidade de encontrar outros moradores do mesmo prédio.

Muitas pessoas procuram locais exatamente com essa característica, pois apesar de viverem em condomínio, eles querem mesmo a privacidade do lar, dividindo apenas os custos das áreas comuns.

Mas, exatamente por todos esses motivos, o comportamento das pessoas começa a mudar. Muitos, principalmente os mais jovens, estão apreendendo a força do CO. COlaborar: trabalhar onde outros trabalham (Co-working); COexistir: desenvolver a vida com os diferentes; COmpartilhar: fazer uso de coisas e serviços que são de todos; COabitar: morar junto a outros. Parece que é o mesmo de morar num mesmo prédio, mas de fato não é.

Essas pessoas estão procurando espaços onde possam levar uma vida individual ou familiar, mas que possam compartilhar momentos com outros, e que todos os que ali habitam possam perceber o seu redor mudando com o tempo. Este conceito está levando os arquitetos e designers de interiores a buscar novas soluções para definir o uso dos espaços.

Se moro em um prédio onde tem um belo jardim apenas para ser admirado e que as crianças não podem usufrui-lo, por exemplo, afasta dessas a possibilidade de compartilhar a vida com o jardim, o que obriga a contratação de um cuidador de jardim.

Os espaços criados para coabitar têm como princípio oferecer a possibilidade usufruir do mesmo, e assim estes passam a ser o ponto estratégico de encontro de pessoas com afinidades.  As hortas, piscinas, lavanderias, salas de ginásticas passam a receber pessoas interessadas nesses usos.

Nos anos 70 houve uma tentativa similar em Sættedammen, que foi nomeado de cohousing. Na Dinamarca uma comunidade de 35 famílias compartilhou espaços de convivência e atividades comuns como refeições e limpeza de ambientes, mantendo as moradias privadas, mas, com o objetivo de estimular o relacionamento entre vizinhos. Talvez um primeiro passo do coliving (coabitar). Estes conceitos foram se desenvolvendo bastante nesse país que hoje ocupa o primeiro lugar em felicidade.

Sættedammen Denmark

Este conceito hoje está amplamente difundido e está crescendo rapidamente em função destes jovens de 25 a 35 anos que não encontram mais sentido em uma vida isolada e desconectada do mundo ao redor. Toda a relação do que entendem por casa, comunidade, distrito e cidade muda a partir da relação que eles estabelecem com suas conexões com os outros, gerando assim a ideia de pertencimento ao lugar e da formação de suas identidades.

Para se aprofundar mais nesta ideia podem visitar o site coliving.org, em todo o mundo este conceito tem atraído profissionais criativos e empresários que buscam inovação e tentam entender estas mudanças. No seu manifesto afirmam que estão explorando novas formas de viver e criar casas. Valorizando: comunidade junto a individualidade; colaboração sobre a concorrência; consumo compartilhado; viver experiências; responsabilidade e divisão de atividades.

Pensem quantos em um edifício têm ferramentas que pouco usam, e que neste conceito poderia existir uma oficina compartilhada bem organizada.

Vale a pena conferir alguns exemplos pelo mundo e se estiver em uma dessas cidades visite pessoalmente:


The Collective Old Oak o maior projeto de coliving do mundo fica em Londres, projetado por PLP Architecture.
 

LILAC na Inglaterra (Low Impact Living Affordable Community) baseia-se no modelo dinamarquês de coabitação: misturando as necessidades individuais com instalações compartilhadas e incentivando a interação social.



Roam Co-Living em Bali do arquiteto alemão Alemão Alexis Dornier.


 E WeLive – Love your life, localizado em Nova York

Artigo originalmente publicado na Revista MIXDECOR abril 2018 edição 41 - Confira na página 74 o artigo "Coabitar - Um novo conceito de morar " - Assinado pelo arquiteto e professor Alvaro Guillermo - www.revistamixdecor.com.br


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Design para uma vida longa

Tendências e análises de consumidores são algumas das disciplinas mais estudadas atualmente.

Já faz alguns anos que vem se alertando sobre um assunto extremamente importante para todos nós, que é a possibilidade de o ser humano viver em média mais tempo, ou seja, ter uma vida mais longa. E o que é melhor, com mais qualidade e em atividade. Assim, você irá ouvir muito falar de longevidade e longeratividade que é a geração que passa a viver mais em atividade.

Outro ponto muito tratado, por esse motivo, é que o Brasil terá uma inversão na sua pirâmide social, passando a ser uma sociedade com mais pessoas acima de 50 anos do que abaixo. Não é a toa que tanto se fala em aposentadoria e previdência social, já é o quarto governo federal tratando esse assunto, os cálculos dos anos 1950 não servem mais.

Pasmem! Apesar de ser a faixa demográfica que mais cresce no mercado, é a menos tratada. Faltam produtos e serviços específicos. Principalmente porque os poucos que pensaram nisso continuam enxergando os “seniors” de 70 e 80 de hoje como aqueles senhores idosos de 50 anos dos anos 1950.

Esta geração é diferente, e acima de tudo tem poder aquisitivo e sabe muito bem o que quer. Não compra qualquer coisa à toa, sabe o valor do tempo, e não vai “gastar” esse tempo em bobagens, ele quer qualidade. Eles estão mudando os hábitos e costumes de consumo.
No Brasil hoje são 54 milhões que é comparada à população da Espanha. Sendo que metade, ou seja, 27 milhões tem renda superior à média da população brasileira. Assim sendo, por questões inerentes à idade, não pretendem guardar esse dinheiro para o futuro. Obviamente gastam muito em saúde e por isso tudo que apresenta uma vida melhor eles prestam atenção.  E o panorama para o futuro revela que continuará crescendo e que em 2050 serão 98 milhões.

E o segmento de arquitetura e design de interiores é um dos mais importantes, depois que todo mundo saiu de casa, e os netos já estão na universidade essa geração precisa um lar diferente. Reformas e mudanças são necessárias.
Como a falta de foco neste público é geral, faltam campanhas publicitárias que os estimulem a repensar os últimos anos de suas vidas. Por isso é comum encontrar profissionais comentando que fizeram uma reforma, mas o cliente não queria investir muito, pois já tinha tudo, do sofá ao quadro.  É nesse momento que o profissional deve exercer seu papel de educador, pois cabe a este também ensinar coisas ligadas ao lar e a morar bem.

Não se trata de encorajá-lo a gastar, muito pelo contrário, trata-se de explicar a importância dos ambientes onde ele passará esse momento especial de sua vida. Memórias afetivas são importantes, mas a felicidade de sentir-se bem é maior.
A casa era de uma família que agora está diferente, e algumas dessas memórias podem prejudicar sua saúde. Cabe ao profissional fazer esse diagnóstico e saber propor um novo ambiente que comporte esse novo modo de vida. Essa geração é ativa, quer receber amigos, tem histórias para contar, não precisa sair de casa para se sentir animado (não precisam de algo como a estratégia do gnomo que Amélie Poulain utilizou para tirar o pai de casa).

Como escolher produtos para esta geração? Sua loja está preparada para recebê-los e atendê-los? Você, profissional da área, já estudou sobre eles?

Isto era uma tendência nos anos 60, hoje é uma realidade. Não tem volta, ainda bem! Viveremos mais e melhor, já há possibilidade de em 2050 o ser humano viver de 100 a 120 anos bem, e até lá muita coisa nova vai aparecer, que se comentar neste artigo vai deixar muitos assustados.

Os poucos mercados que têm se focado nesse público são o turismo, lazer e gastronomia, mesmo com uma visão equivocada dessas pessoas, tem gerado ofertas, até porque está aprendendo sobre eles na medida em que a demanda é atendida.
Assim sendo, repense seu negócio e inclua esse público que será maioria, ou continue trabalhando para uma minoria. 
Alvaro Guillermo
artigo publicado originalmente na revista MixDecor edição 40 Fevereiro 2018